Intervalos enarmônicos: quando o mesmo som são dois intervalos diferentes
A primeira lição sobre intervalos disse que, se a distância é de quatro semitons, trata-se do mesmo intervalo com o mesmo nome, quaisquer que sejam as duas notas escolhidas. Isso é verdade com frequência suficiente para valer a pena aprender, e não é exatamente verdade, e o ponto em que falha merece ser compreendido em vez de decorado.
Dois nomes, um som
Você já encontrou essa ideia aplicada a notas isoladas. Dó♯ e Ré♭ são uma só tecla no piano, um só traste no violão, um só som no ar — e dois nomes diferentes. Notas relacionadas dessa maneira são chamadas de enarmônicas.
Nada obriga um compositor a preferir uma à outra. Quem decide é o contexto: de onde a nota veio e para onde ela vai.
Então dois intervalos podem ser uma só distância
Agora leve essa ideia para um par de notas.
De Dó até Mi são quatro semitons. Conte os nomes das notas — Dó, Ré, Mi — e há três deles, então é uma terça. Quatro semitons em três nomes é uma terça maior.
De Dó até Fá♭ também são quatro semitons. Fá♭ é o mesmo som que Mi. Mas conte os nomes — Dó, Ré, Mi, Fá — e há quatro, então este é uma quarta. Quatro semitons em quatro nomes é uma quarta diminuta.
Os mesmos dois sons. Os mesmos quatro semitons. Um é uma terça maior e o outro é uma quarta diminuta, e não são o mesmo intervalo.
De onde o número realmente vem
Esta é a regra de verdade, e ela tem dois passos, não um:
- O número vem dos nomes das notas. Conte os nomes de baixo para cima, incluindo as duas pontas. De Dó a Mi são três nomes, então é algum tipo de terça — antes mesmo de você saber qualquer coisa sobre sustenidos ou bemóis.
- A qualidade vem dos semitons. Agora conte a distância. Três nomes abrangendo quatro semitons é maior; abrangendo três, menor; abrangendo dois, diminuto.
Contar apenas semitons dá a segunda metade da resposta e chuta a primeira. Isso funciona sempre que a grafia é a óbvia, o que acontece na maior parte do tempo, e falha justamente quando um compositor escolheu uma grafia incomum — o que só se faz quando se quer dizer algo com ela.
Por que alguém se importa com isso
Porque a grafia é um recado sobre função.
Uma terça maior a partir de Dó está dentro do acorde de Dó maior e se comporta como quem pertence ali. Uma quarta diminuta de Dó a Fá♭ quase sempre aparece porque aquele Fá♭ está a caminho de algum lugar — o bemol é um passo numa direção, e escrever Mi apagaria a direção mantendo o som.
A nota escrita registra a intenção. O som sozinho não consegue, e é por isso que duas coisas idênticas no ar são mantidas separadas no papel.
Há ainda uma ressalva, e é honesto mencioná-la: num piano ou num violão isso é de fato a mesma altura, porque esses instrumentos são afinados em temperamento igual, no qual a oitava é dividida em doze passos iguais e todo par enarmônico se funde em um só. Um violinista ou um cantor, sem trastes e sem teclas, tem liberdade para posicioná-las de forma ligeiramente diferente — e muitas vezes o faz, inclinando a nota na direção para onde ela caminha. A distinção no papel é mais antiga que o acordo prático que a esconde.
Erros comuns a evitar
- Tratar “quatro semitons” como uma descrição completa. Isso nomeia o tamanho, não o intervalo.
- Reescrever uma nota para facilitar a leitura. Fica mais fácil, sim, e muda o que a passagem diz.
- Supor que a grafia estranha é um erro de digitação. Um Fá♭ onde você esperava um Mi é uma decisão. Leia assim.
O que isso entrega
Não há nada para treinar aqui, e isso é proposital: uma terça maior e uma quarta diminuta são a mesma tecla, o mesmo traste e o mesmo som, então nenhum exercício respondido de ouvido ou por posição conseguiria distingui-las. A diferença é escrita, não ouvida.
O que isso muda é o seu modo de ler. Daqui em diante, um acidente que parece desnecessário é um sinal, e não um incômodo — e os módulos sobre escalas e sobre o campo harmônico, onde essas grafias começam a fazer um trabalho visível, são onde isso começa a compensar.