Empréstimo modal: acordes vindos do menor de mesma tônica

A lição anterior pegou emprestada uma nota de fora do tom para reforçar um acorde de dentro dele. Esta aqui pega emprestados acordes inteiros, e de um lugar bem específico: o tom menor construído sobre a mesma tônica.

Dó maior e Dó menor compartilham a nota-casa e mais nada. Mesma tônica, conjuntos diferentes de sete notas. E uma peça em Dó maior pode esticar o braço e pegar um acorde de Dó menor sempre que quiser.

Não é a relativa menor

Vale fixar isso antes de qualquer outra coisa, porque as duas se confundem com facilidade e a diferença é a lição inteira.

Lá menor é a relativa menor de Dó maior: as mesmas sete notas, outra casa. Ali não há empréstimo nenhum — vi já é um acorde de Dó maior.

Dó menor é o menor de mesma tônica de Dó maior: a mesma casa, outras notas. Ele tem Mi♭, Lá♭ e Si♭ onde Dó maior tem Mi, Lá e Si, e são justamente esses três bemóis que um acorde emprestado traz consigo.

Os três que você vai encontrar de verdade

iv — a subdominante menor. Em Dó maior, Fá–Lá♭–Dó em vez de Fá–Lá–Dó. Uma nota mudou, e a subdominante passa de aberta a sombreada. IV–I é a cadência plagal; iv–I é a mesma cadência com a luz baixada, e é um dos sons mais infalivelmente comoventes da música tonal.

♭VI. Em Dó maior, Lá♭–Dó–Mi♭. A própria fundamental é emprestada — um semitom abaixo do Lá do vi diatônico —, e é por isso que o algarismo vem com bemol. Costuma chegar depois de V, onde o ouvido esperava I ou vi, e pousa num lugar que ele nem sabia estar disponível.

♭VII. Em Dó maior, Si♭–Ré–Fá. O sétimo grau abaixado, o acorde que faz um tom maior soar por um instante mais como rock do que como hino. I–♭VII–IV é uma progressão que você já ouviu algumas centenas de vezes.

O que está acontecendo de fato

Um acorde emprestado é uma mudança de cor, não uma mudança de tom. A tônica não se move. Nada precisa ser resolvido. A peça continua em Dó maior e um acorde chega vestindo a roupa do outro modo.

É por isso que o efeito é tão imediato. O ouvido sabe onde é a casa, foi avisado o tempo todo, e então escuta um acorde que pertence a uma versão mais escura do mesmo lugar. Nada é desorientado — algo é sombreado.

O contrário também acontece, e você já topou com isso: o V com sétimo grau elevado num tom menor é um acorde maior emprestado na direção oposta, para que o tom tenha uma sensível. O empréstimo corre nos dois sentidos, e o acorde mais importante do tom menor é ele próprio um empréstimo.

Por que os algarismos precisam dos bemóis

♭VI e VI são acordes diferentes, e num tom menor os dois existem. Escrever o bemol não é enfeite; é dizer qual dos dois você quis dizer, exatamente como um V maiúsculo diz qual acorde de quinto grau você quis dizer num tom menor.

É o mesmo princípio pela terceira lição seguida: a notação registra uma decisão que o som sozinho não consegue carregar.

Erros comuns a evitar

  • Confundir mesma tônica com relativa. O empréstimo vem do tom menor que tem a MESMA tônica. Se você pegasse os acordes da relativa menor, não pegaria nada, porque eles já estão lá.
  • Achar que um acorde emprestado precisa de preparação ou resolução. Não precisa. Ele chega, é ouvido, e a música segue.
  • Escrever iv quando você quer dizer IV. A caixa da letra é o acorde. Uma progressão em tom maior escrita com iv soa diferente de uma escrita com IV, e quem ler vai tocar o que você escreveu.

Agora jogue

O exercício toca uma progressão curta e pergunta qual foi o último acorde. Algumas terminam num acorde emprestado e outras num acorde comum.

A pista é a cor, não a posição. O acorde emprestado é aquele que soa como se tivesse vindo de um lugar um pouco mais escuro que o resto da frase — e, depois de ouvir iv depois de IV algumas vezes, você para de precisar pensar nisso.