As quatro cadências: como uma frase termina

Uma frase musical termina como uma frase escrita: com pontuação. Um ponto final, uma vírgula, um ponto de interrogação, ou a reviravolta que faz você reler a linha.

São essas as quatro cadências, e é por elas que você percebe que uma peça acabou sem ninguém precisar avisar.

Autêntica: o ponto final

V → I. A dominante resolve na tônica, a sensível sobe o semitom em que vinha se apoiando, e a música chega.

É o final mais forte que existe, e quase toda peça que você conhece o usa nos dois últimos acordes. Quando ele ainda traz a sétima — V7 → I —, fica mais forte ainda, pelo motivo que a lição anterior deu: duas vozes andando por semitom em direções opostas.

Nada fica em aberto. Se a peça parar aqui, ninguém espera mais nada.

Plagal: o fecho mais suave

IV → I. A subdominante é que resolve na tônica.

Chega, mas sem sensível não há puxão de semitom — então ela se acomoda em vez de resolver. Mais quente, mais redonda, menos conclusiva de um jeito difícil de nomear até você ouvir as duas lado a lado.

Às vezes é chamada de “cadência do amém”, porque é onde boa parte da música de igreja a coloca, e depois de ouvir isso uma vez você vai reparar que é exatamente o desenho do a-mém cantado no fim de um hino.

Suspensiva: a vírgula

Qualquer coisa → V. A frase para SOBRE a dominante, em vez de resolver a partir dela.

É uma cadência que termina inacabada, de propósito. A tensão fica de pé, e o ouvinte sabe sem que lhe digam que vem uma segunda frase para responder a esta.

Venha o que vier antes, a definição está na chegada: frase que termina em V é cadência suspensiva. É por isso que tantas melodias são construídas aos pares — a primeira frase pergunta parando em V, e a segunda responde terminando em I.

Deceptiva: a reviravolta

V → vi. A dominante prepara a tônica, e chega outra coisa.

Está tudo pronto para o ponto final: a sensível está lá, o puxão está lá, e o ouvido já decidiu para onde isso vai. Então o baixo sobe um grau em vez de descer uma quinta, e o acorde que aterrissa é a relativa menor — que divide duas de suas três notas com a tônica e é quase ela.

Esse “quase” é o efeito inteiro. Não é um acorde errado; é o acorde certo retido, e sua função habitual é manter a peça andando exatamente quando o ouvinte esperava que ela parasse.

As quatro, numa tabela

Cadência Acordes O que faz
Autêntica V → I Termina. Nada fica em aberto.
Plagal IV → I Termina mais suave, sem sensível.
Suspensiva … → V Para inacabada, esperando resposta.
Deceptiva V → vi Promete um fim e o retém.

Duas das quatro terminam na tônica e duas não, e essa é a primeira separação a ouvir. Depois, dentro de cada par: puxa, ou apenas se acomoda? Parou, ou desviou?

Erros comuns a evitar

  • Nomear a cadência pelo acorde em que ela começa. Suspensiva se define por terminar em V, venha o que vier antes.
  • Esperar que a deceptiva soe errada. Ela soa não resolvida, que é o ponto, e é extremamente comum no fim de uma primeira estrofe.
  • Ouvir a plagal como uma autêntica fraca. É um final diferente, não menor — a diferença é a sensível ausente.

Agora jogue

O exercício abaixo toca uma progressão curta e pergunta de qual das quatro maneiras ela terminou.

Duas perguntas levam você lá mais rápido que qualquer tabela: caiu na tônica? e teve puxão, ou só se acomodou? A primeira parte quatro em dois, e a segunda parte dois em um.