A Atração da Dominante: a Sensível e o Trítono

A lição anterior disse que a dominante é o acorde que quer resolver. Isso é uma afirmação sobre uma sensação, e sensação é um lugar ruim para parar. A atração é uma nota, e assim que você consegue apontar para ela, passa a ouvi-la de propósito em vez de vagamente.

A um semitom de casa

Em Dó maior, o acorde V é Sol–Si–Ré.

Olhe para o Si. Ele é o sétimo grau da escala e fica um semitom abaixo do Dó — a menor distância que qualquer nota consegue ter da tônica sem ser ela. O ouvido trata essa distância como assunto pendente: um passo tão pequeno soa como quase lá, e o quase-lá quer chegar.

Essa nota tem um nome que diz exatamente isso. Ela é a sensível, porque conduz, e conduz a um lugar só.

Toque Sol–Si–Ré e depois Dó–Mi–Sol, e escute apenas o Si. Ele sobe um semitom até o Dó, e esse único movimento é a maior parte do que você ouve quando uma música termina.

Todo o resto sobre a dominante decorre disso. Ela não é um acorde inquieto que por acaso contém uma sensível; ela é o acorde construído SOBRE as vizinhas da sensível, e sua inquietação é a inquietação daquela nota.

Por que a subdominante soa diferente

Compare com o IV — Fá–Lá–Dó em Dó maior. Toda nota dele é confortável. Não há semitom estendendo a mão para nada, então o acorde se move sem puxar: ele diz fomos a algum lugar, e não precisamos voltar.

Essa é toda a diferença entre partida e tensão, e ela é audível numa única escuta se você souber o que escutar.

Acrescente a sétima e a atração dobra

Pegue o acorde V e empilhe mais uma terça em cima. Em Dó maior isso dá Sol–Si–Ré–Fá, o acorde de sétima da dominante, escrito V7.

A nota nova é o Fá, e ela não é enfeite. Ela cria um segundo semitom que quer se mover — o Fá se inclina para baixo, em direção ao Mi — e coloca dentro do acorde um intervalo que você já conheceu.

Conte do Si até o Fá: seis semitons. Esse é o trítono, o intervalo que a lição sobre qualidade dos intervalos chamou de o único sem nome simples e o de som mais distintivo entre os doze.

Ou seja: um acorde de sétima da dominante contém o intervalo mais instável do sistema, e as duas notas que o formam estão, cada uma, a um semitom de onde vão chegar:

O Si sobe para o Dó. O Fá desce para o Mi. O trítono se abre para fora numa terça, e o acorde resolve.

Duas vozes andando por semitom em direções opostas, ao mesmo tempo, e ambas chegando. Nada mais na harmonia tonal resolve com tanta força, e é por isso que o V7 é o acorde mais comum na música ocidental depois da própria tônica.

A atração é o que dá direção às progressões

É por isso que a lição anterior pôde falar de casa, afastamento, tensão, casa como uma frase e não como uma lista. A tensão tem um endereço: ela não quer apenas se mover, ela quer ir para o I especificamente, e a sensível é o que torna esse endereço específico.

É também por isso que V–IV soa como recuo e IV–V soa como construção. A dominante é o ponto mais distante da viagem. Tudo antes dela é aproximação; tudo depois dela é chegada.

Erros comuns a evitar

  • Achar que V7 é “o V, só que mais jazzístico”. A sétima deixa a resolução mais forte, não mais sofisticada. É exatamente por isso que ele é o acorde mais simples de um blues.
  • Ouvir o trítono como nota errada. Ele é instável de propósito. A instabilidade é o mecanismo.
  • Esperar que a sensível seja a nota mais aguda. Ela é a terça do acorde V e pode estar em qualquer posição do arranjo das vozes. A atração vem da distância até a tônica, não da posição.

Agora jogue

O exercício abaixo toca uma progressão com o último acorde faltando e pergunta o que a completa. Todas elas foram montadas de modo que a resposta seja aquela para onde a atração aponta.

Não deduza pelos numerais. Toque a progressão e deixe o acorde inacabado dizer para onde ele estava indo — o ponto desta lição é justamente que a resposta é audível antes de ser calculável.